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Nos anos 80 a aventura de fantasia e ação Highlander – O Guerreiro Imortal foi sucesso nas salas de cinema e nas videolocadoras. O filme contava a história de um guerreiro escocês do século XVI, descendente de um clã que tinha a estranha peculiaridade de nunca morrer, por mais fortes e poderosos fossem seus inimigos.

Pois parece que um representante deste clã está aqui, entre nós. Mais precisamente em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. A identificação da origem se dá pelo nome, aqui batizado com a brasileiríssima grafia de Railander, e a afamada imortalidade, ainda que esteja presente simbolicamente, se manifesta de forma menos literal, ficando apenas no nível existencial, da sobrevivência mesmo.

E ficamos por aqui nestes paralelos. Esqueça a fantasia e a mitologia presentes na narrativa do Highlander oitentista. No curta-metragem Railander, escrito e dirigido por Alexandre Derlam, entra em cena nossa realidade cotidiana e todas suas nuances sociais contemporâneas. A matéria prima que constrói o suporte dramático do roteiro está fortemente ancorada em temas candentes que estão na ordem do dia: o bullying, o assédio moral e o abuso de autoridade. O forte apelo da atualidade destes temas, aliado a uma história bem contada, potencializa o interesse na narrativa do curta.

Railander (Alex Kanoff) trabalha como caixa de um pequeno supermercado de uma cidade do interior. Calado, tímido e retraído, ele não se enquadra nos padrões esperados pela sociedade. Railander convive com uma rotina tediosa envolvendo abuso de poder do proprietário do supermercado (Carlos Busato) e bullyings frequentes por estar acima do peso. Seu melhor amigo é um colega de trabalho (Ângelo Sérgio), que ao perceber o dilema existencial que consome Railander o estimula a reagir para virar o jogo daquela opressão permanente. A oportunidade da virada acontece de maneira fortuita, quando seu chefe se envolve em um conflito com o também autoritário juiz local. Ao perceber que até os poderosos também caem, Railander assume uma nova postura frente à vida. Reinventa-se e assume pela primeira vez os destinos da sua própria existência.

O curta-metragem de Alexandre Derlam trata essencialmente de relações pessoais e seus opressores mecanismos de controle social, manifestos pelo preconceito e abuso moral sobre minorias. A realidade vivida pelo personagem central é facilmente identificável e, infelizmente, muito comum em diversas esferas do nosso cotidiano. Assim como qualquer indivíduo introspectivo, o mundo interior de Railander é rico de significados e compreensão da realidade onde está inserido. A questão é o quanto ele se mostra incapaz de manifestar ações que possam efetivamente construir uma nova realidade.

Por ser tão corriqueira, a situação vivida por Railander desperta imediatamente no espectador o sentimento da empatia. Sofremos e torcemos por ele. Não é sem um senso de justiça, portanto, que acompanhamos o início da virada do personagem. Neste aspecto muito feliz é a direção de cena e a direção de arte no processo de desenvolvimento da personagem central. Alguns sinais de que a revolta de Railander está se processando são lançados ao longo do filme. Algo está acontecendo abaixo da superfície visível.  Em dado momento ele ensaia frente ao espelho uma explosão de ira contra sua condição. Mais adiante, aparece lendo um livro que aborda a construção da figura mítica do Herói. E por fim, nos momentos cruciais e decisivos da história, veste uma camiseta preta com a imagem do personagem “Justiceiro” dos quadrinhos (simbolizado por uma caveira), como a nos mostrar que houve uma transformação interior que se exterioriza de forma explícita. Um novo Railander estava nascendo, capaz de desafiar o antigo chefe e afrontar os garotos que diariamente faziam chacota com ele no trajeto até o trabalho.

Premiada em diversos festivais de cinema, a comédia dramática Railander é uma pequena fábula moderna que tem muito a nos dizer sobre o tempo em que vivemos.

Texto de Jorge Ghiorzi/ site Janela da Tela